Confesso que não sabia que nossa classe média era de pessoas que ganham 200 e pouco a 1000 reais. Algo ridículo, se levarmos em conta que os preços das cestas básicas giram em torno de 250 a 300 reais.
E isso sim, acho que deva ser mudado.
Para contradizer meu post, muito se falou em desigualdade, que ela era a causadora desses males.
Mas venho relembrar que não acabaremos com a desigualdade tão facilmente, e se um dia acabarmos, será a um custo muito caro, o custo do desenvolvimento, o custo da inovação.
O socialismo, que prega a igualdade, parece lindo no início. Pois bem, lhes mostro uma foto de duas coréias, uma adotou o liberalismo, a outra adotou o socialismo. A partir disto já podemos tirar grandes conclusões.
Adiciono ainda que os indíviduos reagem a incentivos, por que eu vou trabalhar duro, encontrar a cura do câncer, inventar um dispositivo que vai facilitar as nossas vidas, se eu vou ganhar o mesmo que uma pessoa que passou a vida brincando e atua em uma profissão qualquer?
Sim, eu sei que nem todos que atuam em profissões que ganham pouco queriam seguir esse caminho, e por isso que digo que o que podemos fazer é igualar as oportunidades.
Agora não é possível acreditar em um mundo onde uma pessoa vai trabalhar em prol do desenvolvimento de tecnologia, desenvolvimento da saúde, virar noites no trabalho, sabendo que ele possuirá a mesma relevância que um indivíduo qualquer que estuda pouco, trabalha pouco.
Este talvez seja o grande problema dos que pregam tanto que o capitalismo é um mal, e o socialismo é lindo e traz a igualdade: não perceber que o socialismo não entende o conceito de incentivo e escassez.
Noruega, Finlândia, Suécia, e outros países possuem altos impostos, qualidade de vida alta bancada pelo governo, mas sofrem com o exodo de jovens, principalmente os melhores estudantes e trabalhadores, a chamada "fuga de cérebros". Se o cara é melhor que a média, ele vai para algum lugar onde ele não vai ser tratado como a média. E é esse tipo de competitividade que fez com que o mundo se desenvolvesse tanto.
Para finalizar, deixo um texto que já encaminhei a alguns amigos, chamado O Paradoxo de Kennedy:
Um dos mais embaraçoso episódios de minha carreira diplomática, quando embaixador em Washington, foram duas inesperadas indagações que me fez o presidente Kennedy, ao fim de uma conversa relativa à implementação do acordo Kennedy-Goulart sobre a transformação, em nacionalizações negociadas, das encampações confiscatórias feitas pelo governador Brizola, de empresas americanas de telefonia e eletricidade. Eliminar-se-ia, assim, uma área de atrito.
Ao me despedir, Kennedy dardejou-me duas instigantes perguntas:
- "Por que , disse ele, no Brasil e na América Latina, há um viés favorável, entre estudantes, escritores e artistas, ao modelo soviético, maquilado de "socialismo real"? Deveria ser o contrário. Os estudantes adoram mudanças e a sociedade mais experimental do mundo são os Estados Unidos, com sua multiplicidade de raças e religiões, pluralismo político e abertura a inovações. Quanto aos escritores e artistas … presume-se que desejem liberdade criadora de pensamento e expressão. É precisamente isso que inexiste na União Soviética, onde a doutrina do "realismo socialista" condena o individualismo criador e transforma artes e artistas em instrumentos de propaganda partidária, sob pena de patrulhamento, gulags, exílios e privação dos direitos civis?
Confesso que fiquei embaraçado, sem resposta direta àquilo que chamei de "paradoxos de Kennedy".
- Quanto aos jovens, balbuciei, parece que a rebeldia natural da idade se transforma em preconceito contra o mais forte e o mais poderoso. Os mais poderosos só podem aspirar a ser respeitados, nunca amados. A juventude tem encanto por utopias e o capitalismo é rico na produção de mercadorias, porém não na produção de mitos. Para os jovens, a fórmula do dinamite é mais fácil que a do cimento armado. E acrescentei que talvez Bernard Shaw tivesse razão ao dizer que a juventude é uma coisa maravilhosa, sendo pena desperdiçá-la nas crianças.
Mais difícil, acrescentei, é explicar a abundância de intelectuais de esquerda. E, bancando o erudito, citei a teoria de Raymond Aron, cujo livro "L'opium des intellectuels" eu conhecia bem, por ter prefaciado a edição brasileira. Diz Aron que o surgimento do "socialismo real" criou mitos substitutivos dos velhos deuses do Iluminismo: o Progresso, a Razão e o Povo. O novos deuses seriam: o mito da Esquerda, o da Revolução e o do Proletariado. Os intelectuais se seduziram por uma espécie de romantismo revolucionário, considerando as reformas "enfadonhas e prosaicas" e a revolução "excitante e poética". O culto marxista da revolução violenta virou uma espécie de refúgio do pensamento utópico.
Para um político pragmático como Kennedy, interessado na melhora imediata da imagem de seu país entre os latino americanos, minhas divagações eram um lance errado. Ele queria respostas e eu desovava perplexidades. Há um outro paradoxo que Kennedy não mencionou. É que os socialistas, que tanto falam nas massas, não foram os criadores nem do consumo de massa, nem da cultura de massa. Essas massificações equalizantes foram produzidas pela cultura individualista americana. Hollywood foi uma criação de judeus provindos em grande parte dos guetos da Europa Oriental, vítimas de pobreza e discriminação e por isso obcecados com a idéia de criar fábricas de sonhos. O cinema, originado no Ocidente, talvez tenha sido a primeira "cultura de massa" do mundo, agora ampliada pela televisão e pela Internet, também em criações capitalistas.
Meditei muito ao longo de vários anos e até hoje não tenho respostas. Como explicar a mansa aceitação entre nós da cultura americana do jazz, do rock, do fast food, do cinema, acoplada a uma rejeição zangada da cultura do capitalismo democrático que lhes deu origem?
Como explicar que intelectuais de esquerda, que em seu país lutaram pela liberdade criadora e pela dignidade da pessoa humana, tivessem simpatizado, ao longo de vários anos de guerra fria, com um sistema que institucionalizava a delação, a censura, os expurgos e os gulags. Um sistema tão repressivo que levou ao suicídio grandes poetas como Mayakovsky e Ossip Mandelstan; que submeteu à censura política óperas de Shostakovich e obrigou filósofos como George Lukcás a humilhantes retratações.
É uma espécie de esquizofrenia ideológica, que se traduziu em mutilação de corpos e almas em nome da utopia. É por isso que não gosto das utopias. Como disse o politólogo Ralf Dahrendorf: "Nada mais anti-liberal que a utopia, que não deixa lugar para o erro nem para a correção".