quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Minha 3a Série



O ano de 1996 foi marcante pra mim. 

No auge dos meus 9 anos a vida era um pouco mais fácil e as preocupações um pouco menores. Se a professora de Ciências tinha fama de rígida, as provas bimestrais da professora de Português e Estudos Sociais não ficavam para trás no pavor que me causavam. Preocupações pequenas pra um homem de 28 anos, mas enormes pra um garoto da 3a série B.

Foi em 1996 que descobri as eleições e a forma com que a política tem consequências na vida das pessoas. As campanhas naquela época eram diferentes, e não menos ruins do ponto de vista de quem precisa decidir quem escolher como representante. Lembro bem de um "showmício" em 1998 com o grupo Soweto e Oscar Schimdt distribuindo bolas de basquete num palanque liderado por nada menos que Paulo Maluf que naquele ano era candidato (vencido) ao governo do estado.

Se Paulo Maluf não foi eleito em 1998, muito disso deveu-se aos fatos que ocorreram em 1996 e aos quatro anos seguintes em que a disputa pela prefeitura de São Paulo confrontou Celso Pitta, do extinto PPB, e Luiza Erundina, na época no PT.


O então candidato Celso Pitta era o preterido do prefeito Paulo Maluf, enquanto Luiza Erundina tentava voltar ao posto perdido nas eleições de 1992.

O projeto mais marcante daquela campanha foi o famigerado Fura-fila. Algo parecido com o monotrilho que (ainda) não temos em funcionamento.

Os jingles de ambos os lados tomaram conta dos corredores da escola e nos recreios daquele ano de 1996. 

Não teria sido tão marcante se não fosse a constatação de que numa classe com cerca de 25 alunos apenas 2 ou 3 "votariam" na candidata Luiza Erundina. Sob a ótica atual, é quase óbvio que numa escola particular de classe média o candidato da situação seria mais bem aceito.

O problema é que Celso Pitta seria eleito e se tornaria um dos políticos com a carreira mais estranha e conturbada que eu conheci. A formação acadêmica cheia de nomes famosos e o padrinho político levaram o economista carioca até o comando do Palácio das Indústrias. Anos mais tarde, porém, o escândalo dos precatórios cassou o mandato de um já politicamente isolado prefeito que só retomaria o cargo através de liminar nos últimos dias do mandato.

Infelizmente, o ano 2000 contrariou previsões futuristas e não me permitiram retornar àquela terceira série B para cobrar meus colegas pelo resultado desastroso do candidato que eles haviam escolhido quatro anos antes.

Em 2014 a sensação é a mesma de 1996, só espero que em 2018 não sinta tanta vontade de viajar no tempo de novo pra cobrar algumas pessoas que insistem em viver naquela 3a série.


 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Dedaleiro

O dedaleiro é uma árvore de médio porte típica do Cerrado. Com flores brancas exuberantes bem poderiam estar por aí enfeitando alguma alameda do paulistano bairro dos Jardins. A verdade é que não reconheceria um dedaleiro sem a ajuda de um bom botânico.

Porém, foi no periférico bairro do Rio Pequeno que o dedaleiro se fez presente. Não com uma aconchegante sombra, mas batizando uma rua de gente normal e trabalhadora que gosta da vida pacata de classe média.

Da mesma forma que não reconheceria a árvore se a visse por acaso, hoje não reconheço a rua em que moro há mais de 15 anos. Morar na Rua Dedaleiro não foi nem de longe o que fora outrora.



O romance termina aqui. 
Começa a reportagem


Delinquentes pilotando perigosamente suas motocicletas decidiram que a Rua Dedaleiro seria sua pista de exibição e ostentação frente ao poder público e a sociedade.



Os finais de semana na antes tranquila Vila Dalva viraram um inferno. Os dias de descanso daqueles que verdadeiramente trabalham e respeitam o próximo foram preenchidos com estampidos de escapamentos de motos sem identificação, pilotadas muitas vezes por menores de idade. Capacete não faz parte dos artigos obrigatórios porque sua ausência transmite uma clara mensagem às testemunhas: Estamos acima da lei e de todos.
Qualquer tentativa de acionar o poder público com objetivo de restabelecer à calma foi premiada com o descaso de autoridades que insistem em despejar seus santinhos nos nossos quintais nesta época. Ligações para o 190 terminavam em linhas caindo ou promessas de viaturas que em pouquíssimas ocasiões vieram de fato com a inteligência e o contingente necessários para resolver um problema que não se preocupa em se esconder, aparece aos olhos de todos, todos os dias.

Alguns moradores, mais sensíveis à barbárie, se mobilizaram e, por conta própria, utilizaram como arma o próprio calvário. 
Depois de algumas tentativas frustradas pelos burocráticos meios legais, lombadas clandestinas foram construídas e pintadas na antes alegre e viva Rua Dedaleiro. Calejados pela ausência e morosidade da autoridade pública que não se impõe frente aos problemas que agridem o cidadão, os próprios moradores, em iniciativa própria, resolveram o problema de maneira providencial. A paz foi restabelecida.
Pelo menos assim estava até hoje. 
A rua que ainda carrega desatualizadas pinturas da Copa 2002 foi visitada pelo antes ausente poder público. E para surpresa daqueles que buscaram dias de mais tranquilidade, ele veio com uma eficiência germânica para remover os quebra-molas erguidos pela iniciativa popular.
Obrigado Sr. Sub-prefeito!
Obrigado Sr. Prefeito!
Obrigado Sr. Governador!

Sem vocês nada disso teria sido possível. 
Entrarei em contato nos próximos dias, espero que já estejam me aguardando.


PS.: Os tais motoqueiros já voltaram e se aproveitam do bom trabalho do nosso governo...


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Eduardo Campos e a política brasileira


Hoje, 13/08 o Brasil acordou com a notícia de uma acidente aéreo em Santos. Ao longo da manhã as notícias foram chegando e aos poucos ficou claro que o candidato a presidência Eduardo Campos estava a bordo do avião acidentado. As imagens davam pouquíssima margem para otimismo. A morte do ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência da república foi confirmada no começo da tarde deste fatídico 13 de agosto de 2014.

Do ponto de vista humano, e particularmente pra mim que utiliza frequentemente o transporte aéreo, um desastre como esse é bastante chocante e triste. Como consolar as famílias que perdem os entes queridos no auge de suas vidas? O luto guarda em si o silêncio que me parece ser o único alento num momento como esse.  

Estamos às vésperas do início da corrida eleitoral que tenho considerado uma das mais complicadas da curta e recente história de democracia do Brasil. A falta de ética e a desonestidade desgastaram a figura do político de carreira brasileiro de uma forma tão profunda que pude perceber hoje a perversidade que vem sendo externalizada pelo eleitor brasileiro e, não há como se isentar, eu mesmo compartilho parcialmente de alguma perversidade.

Ao longo do dia que deveria ser de luto e condolências, uma série de piadas e "conspirações" foram surgindo nas redes sociais (Facebook e Whatsapp). Todas elas sugerindo hipotéticos beneficiados pela ausência de Campos no pleito de 2014. 

O que deveria levar ao pranto tornou-se riso. Perversas e ignobeis, como definiu Sakamoto, muitas pessoas fizeram espetáculo da tragédia.

Por azar e talvez injustamente, Eduardo Campos represente uma classe tão desprezada pelo povo que nem mesmo a maior de todas as tragédias é capaz de suscitar o mínimo de respeito com o ser humano. É uma constatação terrível, mas sintomática de um país cujos representantes estão na posíção de semi-deuses no Olimpo chamado Brasília.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O Paulista é, antes de tudo, um forte


É quinta-feira, 17 de julho de 2014, 6:00 da manhã. Na semana em que a Copa do mundo deixou o Brasil, um morador do suburbano bairro da Vila Dalva abre o seu moderno e econômico chuveiro a gás e....ping..ping..ping...

Se a semântica me permite eu realmente não sei, mas digo que a falta de água chegou em casa pelas vazias tubulações da Sabesp. O sentimento? Culpa...

Particularmente, seria uma fácil e conveniente falta de vergonha pôr a culpa apenas governador que não deixa de ter sua parcela de desleixo na questão, os especialistas no assunto estão aí dando entrevistas aos baldes, vazios é claro. Os baldes não os especialistas. Banhos longos são parte da minha rotina há uns bons anos...Coisa de adolescente? Não exatamente.

O banho da manhã é o momento em que me organizo, me planejo, penso, e logo existo. Não me orgulho nem um pouco desse hábito, e já tento a alguns anos reverter esse vício. Talvez tenha chegado agora no ponto em que a culpa que sinto poderá desencadear uma atitude mais responsável. Se nos banhos que tomei até aqui pude matutar sobre diversas questões, no banho de caneca tomado nas 3 manhãs seguintes eu pude refletir melhor sobre a falta que a água encanada faz.

Num momento de embriaguez às avessas e pressa parecia clara que a única opção seria enfrentar um banho frio na gélida manhã de julho. Banho esse tomado no único chuveiro elétrico (e queimado) ligado à caixa d'água. Eis que a sabedoria da minha avó que viveu em anos, digamos, mais escassos falou mais alto e com tom ultrajante de obviedade me disse: 

  - Tome banho de caneca!.
  - Tem água quente na torneira elétrica - completou minha mãe, dando um ar mais moderno ao que seria meu banho naquele dia.

A sensação era de precariedade, mas também de alívio por ter o sagrado banho da manhã salvo. Cada "canecada" de água quente - até demais por sinal - vinha acompanhado da insistente imagem de uma casa de pau à pique e de uma criança mulata tomando seu banho sobre uma bacia vermelha-alaranjada no que parecia um cenário do sertão nordestino. Certamente esta criança era o meu próprio reflexo, com os joelhos semi-flexionados de modo a aproveitar cada gotícula de água quente sobre o corpo. Pensei que aquela situação seria para mim passageira, mas e o menino? Nesse instante a antes chamada terra da garoa, senhores, era o sertão.

E parafraseando Euclides da Cunha em 2014, posso dizer que o paulista é, antes de tudo, um forte.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Copa II


Há exatos 30 dias, eu projetava o que seria a Copa no Brasil destacando os problemas nos preparativos e os sentimentos que o futebol desperta em nós brasileiros.

Ontem, a perspectiva do hexa morreu em derrota para a Alemanha no que foi um jogo excepcionalmente fora dos padrões de uma semifinal de Copa, fora dos padrões de um jogo do Brasil. Hoje a Argentina confirmou sua participação como finalista do campeonato vencendo o sempre vistoso e inovador selecionado holandês.

Perdemos, acreditem, dentro de campo e não fora dele.

Muitos falam de vergonha, raiva, tristeza, incompreensão com o "apagão" dentro de campo. Alguns tentando demonstrar lucidez retomam o espírito pré-Copa de revolta com a falta de saúde e educação, os verdadeiros vexames nacionais. Outros, como eu, tentam fazer piada e rir com o que tem sido uma belissíma Copa dentro e fora de campo.

Pensei bastante sobre tudo que se passou nesse último mês histórico e cheguei, não por acaso, à sete conclusões:

Primeiro: Não sinto vergonha pela derrota seja ela pelo placar que for e vou torcer pelo 3o Lugar. A Alemanha conquistou essa posição nas últimas duas Copas e assim construiu esse time fantástico.

Segundo: Vergonha eu sinto ao pensar que Chile e Colômbia foram recebidos como heróis nos seus países enquanto nós insistimos em encontrar culpados entre os nossos.

Terceiro: Vergonha eu sinto ao ter visto a torcida japonesa limpar as arquibancadas de um estádio mesmo depois de uma derrota de sua equipe em campo.

Quarto: Vergonha eu sinto ao ver os alemães exaltando o futebol brasileiro sem qualquer tentativa de diminuir ou denegrir nossa reputação dentro dos gramados. Provavelmente, nossa recíproca não seria verdadeira. 

Quarto: Futebol brasileiro ainda é pentacampeão mundial. Uma derrota como essa em casa só torna as cinco conquistas mais valorosas. 

Quinto: Desta vez, não há algozes pelas razões explicadas no quarto item. A Alemanha foi competente em campo, humilde fora e, na medida do possível, misericordiosa conosco.


Sexto: Desta vez, não há culpados também. Felipão ainda é o professor do penta e ponto final. Infelizmente dessa vez não deu e ele sabe que falhou.

Sétimo: A Copa no Brasil foi legal demais pra ficar a lembrança de tristeza no final.

P.S.:Obrigado Oscar! Pelo menos não foi de zero, isso é importante pros nascidos na terra do futebol.

Até 2018!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Copa


No momento da nossa escolha como sede, era óbvio que nem mesmo os nossos melhores estádios teriam condições de receber um evento importante como a Copa, mas qual evento nossos estádios estavam aptos a receber que não uma demolição? Quase que ao mesmo tempo em que celebrávamos o anúncio da FIFA, lamentávamos a perda de sete vidas perdidas nas podres arquibancadas do estádio da Fonte Nova na Bahia que não suportou o peso dos anos de descaso das autoridades que parecem ter o milenar Coliseu romano como inspiração: pra quê reformar um estádio depois de pronto? A modernização dos nossos estádios para transformá-los nas chamadas arenas tornou-se mais do que uma mera exigência do famigerado "padrão FIFA", mas uma medida de segurança mínima para o torcedor.


A prioridade de uma obra em um estádio quando faltam leitos em hospitais é razoavelmente questionável, mas uma demanda não pode simplesmente anular outra até porque, investigando mais a fundo, veremos que as causas de ambas são as mesmas: corrupção, superfaturamentos e má gestão de recursos. Temos recursos para ambos!

Entretanto, ao que parece, passamos (de longe) da conta.

Construímos um estádio na Amazônia que provavelmente irá apodrecer recebendo jogos do não-tão-tradicional campeonato amazonense de futebol. Quando muito, vai rolar uma pelada da Copa do Brasil vai rolar no gramado caprichosamente plantado no solo que suporta uma floresta colossal.

Em Brasília a mesma situação com um atenuante: trata-se da capital da república. Porém, o que deveria ser atenuante tornou-se agravante: o Estádio Nacional de Brasília será a jóia da coroa desta Copa e foi erguido a um custo estimado em cerca de R$ 1 bi. É o nosso elefante branco de luxo lapidado em mármore.

Até mesmo em São Paulo, onde a então sede, o Estádio do Morumbi, parecia precisar de poucas intervenções acabou resultando na construção de um novo estádio para a cidade. R$900 mi. a menos nos cofres públicos. Uma torcida ao menos parece ter ficado feliz, exemplar "fiel" do desrespeito com os recursos públicos.

Se de um lado tínhamos uma necessidade, do outro tínhamos a costumeira ânsia por dinheiro público que corrói nas nosso sistema político e todos os lobbies associados à ele. O resultado não foi surpreendente senão coerente com as práticas já estabelecidas e, como sempre, gastou-se mais que o previsto tendo como retorno menos que o desejado.

Assim, aos poucos vibrar com a seleção como normalmente se fazia virou motivo de vergonha. Torcer é de alguma forma intepretado como compactuar com tudo que foi feito e da maneira que foi feita.

Infelizmente, bem ou mal, goste ou não, o futebol é a paixão nacional. Amamos este esporte e ensinamos ao mundo como jogá-lo com alegria e competência. Sim! Somos competentes em algumas coisas, e são nessas áreas de excelência que surgem as possibilidades de mudança naquelas em que o país carece.

Gosto de pensar que torcer é querer mudar. E assim vou vestir a amarelinha e, se os deuses permitirem, lembrar da campanha do hexa como um marco para mudanças mais profundas.



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Copa com jeitinho

A Copa do Mundo é nossa!

Mas será o Benedito? Copa no Brasil? Quanto orgulho...

O que recebemos no fim foi um balde de água fria.

Ao que tudo indica nossa vaca foi pro brejo.

 O povo brasileiro caiu no conto do vigário.

Nossos cúmplices representantes fizeram tudo nas coxas.

E nós vamos pagando o pato

Agora só nos resta engolir o sapo (mais um) e fazer o que dá...

Aeroportos remendados inaugurados sob lágrimas de crocodilo e arenas superfaturadas.

Tudo pra inglês ver...

A Copa do Mundo é nossa...de um jeito que só a gente entende.

terça-feira, 25 de março de 2014

Bolacha e Biscoito

Quatrocentos e trinta e dois quilometros separam as duas maiores cidades brasileiras. Maior que a distância física, só o acervo cultural que as duas proporcionam ao resto do país.
 
São Paulo, terra do trabalho. Rio, a cidade maravilhosa. Não que Sampa não tenha suas maravilhas, nem que São Sebastião do Rio de Janeiro não tenha belezas erguidas com suor de muito trabalho.
 
Os nascidos em uma dizem que odeiam a outra sem sequer conhecer. Eu mesmo já fui um desses. As vezes a gente ouve isso em casa e aí fica difícil desaprender. Fica tudo esquecido no vazio do "achismo".
 
Rivalidade mesmo, só na mesa de bar.
 
-É Bolacha - dizemos com a certeza de um povo que acredita não ter sotaque.
-É Bis(x)coito - respondem eles - Bo(u)lacha é um tapa na cara.
 
Eis que faltou água na outrora chamada "Terra da garoa".
 
Os governadores que não frequentam mesas de bar resolvem sentar-se para conversar.
 
-Preciso de água do Paraíba do Sul - diz o representante paulista
-Jamais permitirei que se retire água que abastece o povo do estado do Rio - rebate o colega carioca.
 
No bar do ano eleitoral, Cabral dá uma bolacha na cara de Alckmin. Não sabiam que era só brincadeira.









segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Eles não tinham esse direito

Em 1950, a celeste de Ghiggia calou nosso gigante.

Eles não tinham esse direito.

Se 1994 parecia distante demais, 1998 seria a esperada repetição do bi de 58-62. Ao nosso lado tínhamos um fenômeno no auge. Zidane e Les bleus me ensinaram que no futebol ter o melhor não significa ser o melhor.

Eles não tinham esse direito.

Em 2002 foi um alívio. Não teríamos que esperar longos 24 anos para ver o Brasil campeão. Ronaldo superou todas as adversidades que enfrentou nos anos anteriores fazendo um campeonato impecável. Contudo, Oliver Kahn e a "burrocrática" FIFA nos tiraram o título de melhor jogador daquele ano.

Eles não tinham esse direito.

Em 2006 tínhamos um time desinteressado de meiões mal puxados.

Eles não tinham esse direito.

Na África em 2010 tudo conspirava a nosso favor, exceto o humor da dupla Dunga e Felipe Melo. Até então, éramos imbatíveis fora da Europa.

Eles não tinham esse direito.

Em 2014 não se fala de bola, mas sim de como nosso governo aproveitou-se do nosso inato amor ao futebol para criar um monstro de incopetência com a gestão de recursos públicos. O que era para ser nossa maior paixão, agora alimenta nosso ódio.

Eles não tinham esse direito.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O rolezinho e o protesto

A polêmica da vez em São Paulo (se espalhando pelo Brasil) estão sendo os tais rolezinhos organizado por jovens da periferia que combinam de encontros em alguns shoppings da capital. O resultado em geral é um tumulto generalizado causado por jovens desorientados, movidos por uma causa frágil e um estado muito bem preparado para descer o porrete em qualquer tipo de mobilização como de costume.

Começo minha linha de raciocínio com um exemplo que acontece todos os anos em algum lugar do Brasil.

O time A perde o campeonato pro time B. 

O muro do time A amanhece pichado com frases do tipo "vergonha", "Fora Fulaninho", "Fulanão mercenário", "Respeito com essa camiza(sic)". 

A manchete do dia seguinte: "Torcida A protesta contra perda do título". O protesto não pode ser isso, não deve ser isso!

O exemplo acima é uma demonstração de como a noção de "protesto" amplamente divulgada ao jovem brasileiro é distorcida, e por isso acaba alimentando algumas aberrações que alguns estudiosos até bem intencionados interpretam equivocadamente como fenômenos sociais frutos do abismo entre classes no Brasil. O abismo está lá, é um fato, mas considerar os tais rolezinhos uma forma legítima de protesto contra esssa situação acaba forçando a interpretação do fenômeno como a velha, e diria simplista, luta ricos x pobres quando em verdade ela não é em si uma manifestação espontânea pela mudança, mas um exemplo do que precisa ser mudado. 

Jovens marcando encontros em redes sociais em shoppings localizados próximos às suas residências não me parece ser bem um exemplo do choque de classes simplesmente porque não envolvem os extremos de uma pirâmide cuja ponta estreita pesa secularmente sobre uma base ampla e diversa. 

O pobre miserável brasileiro não me parece ser exatamente aquele individuo que confirma presença em um evento no Facebook (e vai nele), me desculpem, mas na minha visão, talvez romântica demais, o pobre brasileiro está preocupado em sustentar-se em necessidades digamos, mais básicas. "Al otro lado del rio", está o vilão da história, o estigmatizado rico brasileiro que segundo o que andam divulgando por aí é frequentador assíduo do Shopping Itaquera na Zona Leste de São Paulo, região com menor valor do metro quadrado na cidade sabe? Um luxo!....Peraí?! Quer dizer que o pobre não é tão pobre e o rico não é tão rico?! Mas e a história da sociedade perversa que exclui o pobre dos espaços na cidade? 

De alguma forma, os protestos (legítimos) de 2013 mudaram a maneira como as pessoas têm interpretado as estratégias de ação de alguns grupos. Estamos vivendo um tempo em que tudo parece legítimo, tudo parece ter uma razão nobre de ser. Há 6 meses, os médicos brasileiros pareciam estar sendo injustiçados pelo governo com a chegada de médicos cubanos e foram as ruas. Vi amplo apoio aos protestos na mídia e redes sociais, alguns deles sustentados com argumentos preconceituosos e até mesmo racistas. Hoje só se fala de comunidades beneficiadas pelos "doutores importados". Enfim, quase erramos e não podemos insistir na generalização de que toda mobilização de massa é legítima e tem motivações nobilíssimas.

Termino esse texto com a definição do verbo protestar encontrada em um dicionário. Livro simples, impessoal, e por isso, isento. Reflita...

Protestar: v.t. e v.i. Insurgir-se contra alguma coisa; reclamar; dar demonstrações de repulsa ou revolta contra alguma coisa.