quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Desculpe o transtorno, preciso falar da Lava-Jato


Conheci ela num Jornal Nacional apresentado por um William Bonner ainda casado com Fátima Bernardes. Pode parecer bastante "coxinha" imaginar aquele lar classe média anti-petista paulistana. Mas as reportagens e fases que se seguiram nos meses adiante era tudo que precisávamos naquele momento após o agitado ano de 2013. De novo, não eram só 20 centavos.

Ela tinha destaque na Globo. Minha família assiste Globo. Eu não assisto Globo, mas vivo sob o mesmo teto que minha família.

Ela estava lá. Denunciando, prendendo, delatando. Nunca vou me esquecer quando Cerveró, Paulo Roberto Costa, Fernando Baiano e Youssef citaram Cunha em suas delações. E quando Lula foi conduzido coercitivamente a depor? Quando tudo parecia impunidade, os presidentes e donos das maiores empreiteiras do país apareceram algemados. Foi paixão a primeira vista. E não foi só pra mim, acho.

Passei algumas manhãs acompanhando os desdobramentos das operações desencadeadas pelo Brasil e que avançavam sem receios do poder econômico ou político e, por algum momento, sem distinção partidária.

Começamos a "namorar" quando ela estava na 14a fase e prendeu Marcelo Odebrecht. Parecia que um novo Brasil começava ali.

Vimos as contas da Petrobras serem devassadas. Centenas de contratos públicos superfaturados firmados com empreiteiras  com objetivo de regar as campanhas eleitorais bilionárias de anos anteriores foram desmascarados. Não cheguei a bater panela pra Dilma porque via que o Congresso era o problema. Devo ter divulgado dados sem pesquisar. Escrevi bobagens na timeline do Facebook. Perdi mais de meia dúzia de amigos e junto com eles a possibilidade de um debate de alto nível. Sofremos com os descrentes que falavam que ela acabaria depois do golpe, rimos com os entusiastas ufanistas que defendiam a "intervenção" militar pra restauração da "moral". Tivemos, segundo estatisticas não oficiais, 70 delações premiadas escancarando os padrões éticos da política nacional.

Viajamos o equivalente a um mundo nesse dois anos, eu de avião mesmo, trabalhando, e ela nos noticiários internacionais, a House of Cards brasileira. Dos dez políticos que eu mais abomino vinte foi ela quem me apresentou

Aprendi o que era esperança por um país justo, delação premiada, celeridade processual e tantos outros termos fora do meu vocabulário, digamos, de exatas.

Ontem terminamos. E não está sendo fácil. Não chorei porque ainda não deu tempo de olhar pra trás e lembrar...

"Lembra da Lava-jato? Aquele movimento que parecia fazer as coisas mudarem no Brasil?"

Com certeza, levaria ela comigo pra sempre, mas ela acabou.

Ontem em exposição cheia de "convicções", como têm-se dito, e poucos fatos novos o procurador Dallagnol demoliu os alicerces da Lava-Jato: a credibilidade e a isenção.

Ele conseguiu unir críticos e defensores do "lulopetismo" em um única conclusão: foi patético. E assim, como previam os pessimistas com o qual sofremos antes, a Lava-Jato, repito, acabou ontem.

Havia até indícios para crer que o fim começou antes, com a anulação da delação de Léo Pinheiro, ou com o golpe parlamentar em Dilma e talvez, por fim, no episódio da exoneração do Advogado-Geral da União Fábio Medina Osório que foi embora acusando o atual governo de objetivar frear a operação.

Convicções não denotam má intenção, e as minhas indicam que Dallagnol não objetivava o fim que alcançou.

A Lava-jato termina ontem com Lula mais "inocente" nas convicções daqueles que o seguem e uma oposição certa de que a trapalhada apresentada pelos procuradores em primária apresentação com extensão .ppt tira também qualquer chance de avanço dessa devassa da justiça sobre seus os verdes pastos regados à dinheiro sujo da corrupção.

Era tudo o que eles queriam, o fim da Lava-Jato. Agora, não falta nada.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Vão-se os anéis, ficam os dedos

Rementendo às superstições que acreditam trazer prosperidade e sucesso, em 08 de Agosto de 2008, pontualmente às 20:08 os chineses apresentavam aos outros 5/6 do mundo a China que é potência econômica, política e, claro, esportiva. Muitos, como eu, interpretaram a abertura épica e a organização daqueles jogos olímpicos como o credenciamento final do gigante asiático ao restrito hall de países desenvolvidos.

Naquele mesmo ano, do outro lado desta bola rochosa perdida no espaço, um outro gigante brilhava como nunca antes e se posicionava como o sucessor natural ao acesso desse mesmo hall. Senti que o próximo da fila, se é que ela existe, finalmente seriamos nós.

Enquanto os membros do mundo desenvolvido do qual sempre quisemos fazer parte pareciam saltar sincronizadamente na crise financeira que atingia a economia global, por aqui a euforia era total e, segundo algumas figuras públicas notáveis, só uma marolinha da onda da crise chegaria por aqui.

Assim como Ícaro (ah sempre os gregos) nossas asas de cera e mel estavam deslumbrantemente prontas para alçar vôo. Nosso Sol: os Jogos Olímpicos de 2016.

Oito anos se passaram...

A marola ganhou força ao aproximar-se da rasa costa brasileira e, se nos países menos "abençoados por Deus" terremotos são seguidos de tsunami, por aqui ocorreu o contrário: o tsunami econômico foi seguido por um terremoto político.

Se intepretado semanticamente teríamos um incalculável estrago, o sentido figurado dessas catástrofes não fica atrás.

Sobrou pouco daquele Brasil de 2008 (nem as figuras notáveis se salvaram) e nossas asas de Ícaro parecem mais perto que nunca de derreter no calor do implacável Sol Tropical que nos seduzia há oito anos.

É muito provável que os jogos do Rio sejam lembrados pela quantidade de problemas antes e durante as disputas...

-Mas é sempre assim...- alguns dizem.

Dúvido muito que britânicos, chineses, gregos, australianos e americanos que organizaram os últimos jogos estariam aptos a usar argumento tão fajuto que com frequência "cola" por aqui.

Alguns se basearão no velho costume brasileiro de minimizar os problemas ignorando críticas e achando que o já consagrado jeitinho vai fazer as "coisas acontecerem" na hora que precisar e o "espírito festivo" tupiniquim criará uma atmosfera festiva com o (suposto) sucesso que foi a Copa de 2015.

Outros tão pouco realistas quanto os primeiros dirão que tudo foi um desastre. Exaltarão a incompetência inata deste povo fadado ao atraso, condenado à sua pequenez histórica. Às vezes tenho a impressão que diminuir quaisquer manifestações de esforço coletivo é por aqui equivocadamente interpretado como sinônimo de lucidez.

O conflito de opiniões e expectativas ficou claro quando o presidente do COI Thomas Bach disse que esse seria um evento "À la Brasil".

-O que será que ele quis dizer?

Para não expor demais o cômite local, e evitar mais polêmicas nos já complicados jogos do Rio, Bach esclareceu que quis exaltar o clima festivo do povo local.

Postos fatos e (mais) opiniões, a conclusão que chego é a de que ainda somos como o Ícaro preso no labirinto de Minos, seguimos perdidos e sem asas mas de alguma maneira mais cientes de que asas de cera não são as melhores para alçar o vôo que nos levará ao objetivo desejado.

Portanto, se o filho de Dédalo não teve a chance de ter um final de melhor sorte, o Brasil poderá de hoje em diante trabalhar em "asas melhores" sabendo que alcançar o tão desejado lugar ao Sol (não somente olímpico) é tarefa que demanda tempo, amadurecimento e, fundamentalmente, mudanças culturais fortes, ou seja, um labirinto muito mais sinuoso e cheio de rotas falsas que o análogo do mito grego.

Se a frustração é grande nesse momento é preciso lembrar que apesar de tudo o velho provérbio, em versão adaptada, nos dá um consolo com fundo de esperança:

Vão-se os anéis, olímpicos, mas ficam os dedos.

Portanto, declaro aberta a busca por um destino melhor pra todos nós.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Esqueçam a Alemanha!


Brasil 0 x 1 Peru.

E o Brasil volta pra casa com escalas em Frankfurt, Zurique, Dubai e Hong Kong.

Casa?

Ok. Faz tempo que exportamos futebolistas pro mundo e assim é o futebol globalizado que também é conhecido por não ter mais "bobos" em campo. Será?

Aqui nasceram craques em todas as épocas e, por obra sabe-se-lá do quê - geografia, clima, genética, culinária - arrisco dizer com 5 estrelas no peito que temos, de longe, o melhor futebol do mundo.

"Ahh mas a Alemanha..."

Pegue aleatoriamente 11 alemães e 11 brasileiros. Coloque-os em campo e repita o processo cem vezes mais. Vai sobrar 7 a 1 pro nosso lado.

Mas não é esse o caso.

Escolhemos (supostamente) o mais capaz e preparado para eleger os 11 melhores de nós numa seleção. Fizemos isso tão bem nos últimos anos que o processo ganhou letra maiúscula e virou instituição com fama mundial, a Seleção.

Apesar do sucesso, o posto de técnico da Seleção não é fácil num país de 200 milhões de técnicos como reza o slogan clichê.

A relação controversa com a mal acostumada ( e bem servida) torcida canarinho produziu frases
históricas como o célebre "Vocês vão ter que me engolir" proferido em 1997 pelo Tricampeão mundial Zagallo.

Tivemos que engolir mesmo, Professor Zagallo...

Taí uma honraria de raro valor quando o assunto é Seleção: ganhar o título de Professor...

Por aqui diz-se que todo time campeão tem os carregadores de piano cuja vontade e raça se sobrepõem à técnica e elegância.

Foi com vontade contagiante que Dunga ergueu a taça em 1994 e será eternamente o capitão do Tetra.

Mas o capitão Dunga nunca será o Professor Dunga.

A impossibilidade de atingir um posto reservado a poucos passa por um estilo de jogo apático, galáctico e truculento que, fundamentalmente, se esconde em farpas das raízes do nosso futebol vivo, alegre e leve. O futebol brasileiro.

Com alguma ajuda de Wikipedia e da minha memória de torcedor lá vai:

Em 1994, 11 dos 22 jogavam no Brasil. Campeão mundial após 24 anos de espera. Ufa!

Em 1997, 9 dos 22 jogavam no Brasil. Campeão da Copa das Confederações com direito a 6 a 0 na final contra uma improvável Austrália.

Em 1998, 9 dos 22 jogavam no Brasil. Vice campeão mundial (minha eterna frustração).

Em 2002, 13 dos 23 jogavam no Brasil. Campeão Mundial.

Em 2004, 11 dos 22 jogavam no Brasil. Campeão da Copa América com empate histórico e vitoria nos penalties contra a Argentina. Até hoje assisto aqueles últimos 5 minutos em que o jogo parecia perdido.

Em 2007, 3 dos 23 jogavam no Brasil. Campeão da Copa América com Dunga com um inacreditável 3 a 1 na final contra a Argentina novamente.

Em 2009, 7 dos 23 jogavam no Brasil. Campeão da Copa das Confederações numa virada contra um improvável 0 x 2 aberto pelos EUA. Aquele primeiro tempo eu lembro bem Dunga.

Em 2010, 3 dos 23 jogavam no Brasil. Felipe Melo era Dunga em campo. Deu no que deu.

Em 2013, 11 dos 23 jogavam no Brasil. Brasil campeão da Copa das Confederações com um 3 a 0 sobre a então campeã mundial Espanha.

Em 2014, 4 dos 23 jogavam no Brasil. Bom, já falei sobre isso.

Alguns críticos dos recentes vexames da Seleção evocam como modelo a se seguir o futebol praticado na Europa por Barcelona e Bayer especialmente. Também gostam de exaltar o case de sucesso organizacional germânico esquecendo-se que as desorganizadas escolas sulamericanas detem quase metade dos mundiais já disputados. E se aquela bola do Higuaín entra?

Dunga e parte da crítica não entendem que a história que o primeiro fez parte e a segunda documentou começa aqui na minha rua como em tantas outras, vai pelo campinho de terra batida como tantos outros chegando no Morumbi cercado pelo cheiro de sanduíche de pernil como tantos outros estádios do país, ou seja, tem que ser protagonizada por aqueles que jogam aqui!

Os números me parecem mais convincentes do que qualquer romantismo que eu pareça trasparecer e sendo bastante objetivo: tem Europa demais na nossa Seleção.

Esqueçam a Alemanha, nosso futebol permanece aqui escondido atrás da muralha de espinhos e certezas da indesejada segunda Era Dunga que, espero, termine antes que chegue uma trágica ausência na Copa de 18.


terça-feira, 29 de março de 2016

Brasil líquido

Já não se batem panelas mais. 

Não é preciso. 

O objetivo de derrubar o governo eleito através de um constitucional (sim) e questionável (também) processo de impeachment caminha na cadência que pede o cortejo de uma nação. A derrota não é de um individuo ou grupo, mas de um país inteiro.

Derrubar um governo no seu segundo ano de mandato é sinal de fracasso. Seja pelo equívoco da escolha feita seja pela falta de alternativas menos traumáticas para a economia e para a política que pudessem tornar um governo viável.

A solução segue as tendências da modernidade líquida de Baumann e outros pensadores onde substituir é mais fácil do que consertar. A regra, achava eu, valia para coisas, pessoas, amores talvez. Destinos de nações me parece demais agora.

O precedente está aberto.

"Compramos" a queda de Dilma como quem troca de celular que no fim das contas, vai fazer mais do mesmo. A "prateleira" tinha poucas opções o que na minha modesta visão fazia da opção pela manuntenção uma boa. Mas a questão não é essa. É preciso comprar a "mudança".

Nos meios que frequento, dizer que é contra a saída de Dilma gera reações de espanto similares às de dizer que não tem, por exemplo, um smartphone nos dias de hoje. 

Bastou a Temer (que fez parte de tudo de errado deste governo) e ao PMDB esperar. A obsolescência programada deste governo já estava configurada desde a divulgação do resultado do pleito de 2014. Era só aguardar uma novidade no "mercado". 

E ela veio do Paraná.

Como qualquer produto, tudo começou com a matéria prima que veio de Curitiba. Matéria prima de qualidade e que espero virar algo realmente bom pro país.

O problema é que o produto final preferido acabou sendo montado pelos setores da imprensa que tem tradição pela defesa de interesses não-coletivos e acostumados em vender "coisas".

Assim, lapidado por profissionais o produto acabado estava pronto para um mercado sedento de "impeachmaníacos".

Dormimos na porta da loja, brigamos pra ter, discriminamos quem não comprou, não temos como viver sem.

Porém, como de costume, não lemos direito o manual de instruções que no nosso caso é conhecida pelo nome constituição.

Também me parece que esquecemos que é preciso pagar por essa compra. 

Neste caso o pagamento à vista nunca é uma opção e a compra no crédito parece longs demais e vai comprometer as "compras essenciais" do futuro.

O Brasil não vai mudar. Este produto não está e nunca esteve disponível no mercado.




domingo, 13 de março de 2016

Polarizados?

São 2:40 da manhã de mais um dia que entrará para a história do Brasil.

Ao que tudo indica, milhares de pessoas vão às ruas na tarde de hoje pedir, entre outras coisas, o impeachment da presidente reeleita Dilma Roussef.

Os ânimos estão cada vez mais acirrados numa polarização inventada dos discursos contra e em favor da atual liderança do executivo.

Digo inventada pois só é possível definir uma divisão em pólos quando há maneiras objetivas de se dividir as partes envolvidas e esse não parece ser o caso.

Listando as seguintes características:

-Não tolera a opinião contrária.
-Faz vista grossa para alguns personagens políticos atolados em denúncias de corrupção.
-Acha que aqueles que pensam de maneira contrária querem beneficiar um grupo em detrimento do todo.
-Acha que o suposto outro lado odeia rico/pobre.
-Compartilha conteúdo de fontes duvidosas nas redes sociais.

Postas as características acima, de quem falamos?

Pois é, pensou em coxinha/mortadela. Errou. Esse aí é você!

Mas calma que a culpa disso não é sua, nem minha, nem do outro, mas de todos nós.

A polarização inventada e colocada no nosso inconsciente coletivo pelos meios de comunicação formadores de opinião beneficia quem a não ser os próprios meios de comunicação formadores de opinião? E quem perde?

Certamente todos.

Caberia a cada um de nós ter a visão crítica necessária para entender que fatos não são informados de maneira isenta nunca. O professor Leandro Karnal escreveu em um dos seus posts no Facebook sobre o que faz diferença para formar um espírito crítico e nele sugere algumas leituras:

[...]
Exemplo inicial: Bíblia. Livro formador do pensamento ocidental. Sem ela  quase nada faz muito sentido, da Capela  Sistina ao Caim de Saramago. Não é religioso? Aprenda que o seu gosto é irrelevante na formação do mundo ocidental. Tem ojeriza a textos religiosos? Vc será pó e a Bíblia continuará a ter muita influência no mundo mil anos depois que seu sobrenome tiver virado fumaça nas brumas do tempo. Formação não é preferir coca zero com gelo ou só limão . Formação é processo de diálogo denso e árduo com as bases do mundo.
[...]

Talvez o que eu esteja fazendo vá na direção contrária ao que sugere o professor Karnal uma vez que meu embasamento não é tão sólido e parte de simples observação do mundo ao meu redor. Entretanto penso que vivemos uma crise do espírito crítico/formação por ele definidos uma vez que achamos que só a nossa interpretação dos fatos é relevante.

Blindar-se de qualquer discurso que não seja uníssono com o meu tiraria a solidez que essa posição deve transparecer ao olhar do outro.

É muito provável que durante este dia o universo seja dividido em Quem-foi e Quem-não-foi e que esta classificação torne-se condição inequívoca para que sua opinião seja sumariamente ignorada e/ou ridicularizada pelo dito "outro lado".

Paradoxalmente quanto mais aceitamos a imposição dessa divisão, mais parecidos nos tornamos.

domingo, 25 de outubro de 2015

por Helio Gurovitz

Para além de coxinhas e mortadelas


O filósofo canadense Joseph Heath, da Universidade de Toronto,  autor de Enlightenment 2.0Em praticamente todas as democracias, a política contemporânea tem sido marcada pela polarização e pelo discurso extremista e irracional. O ódio assumiu o lugar do diálogo produtivo nas disputas entre republicanos e democratas, entre liberais e conservadores, ou mesmo – para usar os termos da moda aqui no Brasil – entre coxinhas e mortadelas. A vitória de Justin Trudeau, do Partido Liberal, nas últimas eleições canadenses foi uma exceção, pois ele é um candidato de matiz moderado, como já escrevi aqui. Mesmo assim, a campanha canadense foi marcada pela polarização. O filósofo Joseph Heath, da Universidade de Toronto, lançou no ano passado um livro que tenta decifrar esse fenômeno e propor saídas para ele. Para Heath, como explico em minha coluna desta semana na revista Época, a raiz da irracionalidade na política são as críticas feitas aos ideiais do Iluminismo ao longo do século XX, marcado por guerras, genocídios e armas nucleares. É verdade, diz Heath, que os iluministas desprezaram a força da intuição e de nossas emoções. Mas os arautos modernos da intuição se transformaram em defensores de decisões irracionais, quando não simplesmente erradas. O motivo é a ignorância de ambos, iluministas e seus críticos, a respeito do funcionamento da mente humana, descrito por conhecimentos que emergiram apenas nas últimas décadas. O principal é a descoberta dos dois sistemas que regem a tomada de decisões. O primeiro, baseado na razão e na linguagem, mais lento e seguro. O segundo, baseado na intuição e nas emoções, mais veloz e mais propenso a erros. Não dá, diz Heath, para ignorar nenhum dos dois. Mas é preciso reconhecer o óbvio: a razão sempre tem razão. Heath defende, portanto, que a sociedade e as instituições desenvolvam truques capazes de driblar as ilusões oriundas das nossas intuições. É um retorno ao primado da razão, às decisões mais lentas e fundamentadas, resultado de discussões amplas e profundas – uma proposta que ele chama de Iluminismo 2.0. Difícil, mas não impossível.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

E depois?





Em outubro de 2014, após conhecido o resultado das eleições escrevi o post Bra vs. Sil sobre o resultado daquela histórica eleição projetando os possíveis desdobramentos da apertada vitória nas urnas na condução política do segundo mandato de Dilma Rousseff.


Menos de um ano depois, é possível afirmar que a crise política e econômica seguem numa crescente que pode culminar numa situação lamentável para a curta história democrática brasileira: um segundo impeachment presidencial motivado por denúncias e esquemas de corrupção que, a rigor, envolvem quase toda a classe política brasileira.
 
Martin Luther King afirmou em um de seus sermões: "Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa."
 
Questionar factóides e propagandas veladas deveria fazer parte do processo crítico pelo qual colhemos informações veiculadas nas mídias para formar uma opinião. É uma tremenda estupidez deixar de consultar veículos de informação ideologicamente antagônicos dividindo-os um como "o lado bom" e outro como "o lado ruim".
 
Uma abordagem maniqueísta só é capaz de formar uma opinião pública replicadora de ideologias sem a capacidade de enxergar outro lado, sem capacidade de negociar, sem a capacidade de dialogar e por fim, para desgraça da espécie que leva a sapiência no nome, sem a capacidade de raciocinar. Num cenário desses somos um rebanho seguindo os que têm um bom palanque pra disseminar extremismos recheados de ódio.
 
Como é típico deste tipo de discurso ideológico e/ou (falso)moralista, falta razão e sobra emoção. O têmpero da recessão econômica (que é causa e consequência) completa as lacunas que faltaram em outras oportunidades e engrossam o coro ao redor daqueles que fazem a política do quanto pior, melhor. E assim, a queda da presidente vai se consolidando como a única e melhor saída para uma crise que se agrava pelo esforço de autopreservação de figuras deploráveis como Eduardo Cunha que foi seguido por partidos  (PDT e PTB) da base aliada que romperam com o governo pelo bem dos trabalhadores(sic).  Dizem que os ratos são os primeiros a abandonar um navio indo a pique.
 
Nos últimos dias a figura do vice presidente Michel Temer destacou-se pelo discurso clamando a união e que foi apoiado por representantes do setor produtivo. O que parece ser uma reação em defesa da isolada presidente, na verdade pode significar o início de um processo de sucessão pra atender as angústias de rebanho em fúria. Mas e depois?
 
Quando o rodeio acaba só os palhaços permanecem na arena.  
 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A volta de Momo


Diz-se em algum momento na mitologia grega que o deus Momo, personificação da ironia e do sarcasmo, fora expulso do Olimpo após zombar de Zeus, Atenas e Prometeu e suas respectivas invenções: o touro, a casa e o homem. Reza a lenda que Momo, escolhido para arbitrar a disputa entre os caprichosos deuses teria dito que o touro não deveria ter os olhos embaixo dos chifres para ver quem ataca, a casa deveria ter rodas para ser levada com quem se muda e o homem deveria ter o coração do lado de fora para mostrar sua essência sem escondê-la. 

Momo, porém, voltaria ao Olimpo para aconselhar Zeus na resolução do problema de superpopulação da Terra. E assim seguindo seu nefasto ou irônico conselho, o maior dos deuses fomentou um conflito entre os homens que se tornou conhecido como a Guerra de Tróia.

Todos os dias percebo que os deuses da mitologia Tupiniquim contemporânea ficam, no devaneio das suas disputas, enfurecidos com Momo que é equivocadamente rotulado de branco, preto, vermelho, azul, coxinha, intolerante, machista, homofóbico, comunista, capitalista, etc etc quando na verdade ele é apenas a sarcástica e por vezes ignóbil e ignorável ironia.

A fúria é tamanha que mais dia ou menos dia expulsaremos Momo daqui achando que a disputa estará resolvida, mas e quando ele voltar?

"Momo criticando o trabalho dos deuses" de Maarten van Heemskerck, 1561,
 Gemäldegalerie, Berlin

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Unidos de São Paulo


Meu feriado de Carnaval foi bem parecido com o dos anos anteriores.

Desta vez, fomos pra(o) praia/interior dar uma relaxada. O trânsito estava bastante carregado nos acessos da Castelo/Imigrantes/Fernão/Dutra. Até pelo menos o primeiro pedágio (que aumentou a tarifa) fomos indo na base do anda e para. Um saco de biscoito de polvilho não foi suficiente pra tamanho tempo perdido no congestionamento. No fim dessa jornada, a viagem que levaria 1/2/3 horas acabou levando 6/7/8. Chegamos de madrugada e exaustos.

No outro dia acabamos acordando muito tarde por conta da noite anterior. O dia não estava lá essas coisas, mas deu pra aproveitar. A noite saímos para aproveitar o único local com uma programação de eventos de carnaval. Tudo muito parecido com o ano anterior, talvez um pouco mais cheio...

Assim foi no Domingo, Segunda e Terça. Uma chuvinha no fim de tarde ali, ou aqui, mas nada que atrapalhasse.

Quarta-feira de cinzas é dia de juntar o que sobrou e voltar pra casa. O mesmo passo da ida se fez presente na volta. Longas filas e horas dentro do carro...só que com um ar de cortejo fúnebre em que o defunto (ou quase isso) somos nós.

Em 2015 será diferente...

Os 28 anos me fizeram repensar toda essa sina de Carnaval. Ainda não sei se estou velho demais pra enfrentar horas de trânsito e pequenos lugarejos super lotados ou se sou demasiadamente jovem para aproveitar os bons momentos livres da forma tradicional que ainda entusiasma algumas pessoas.

Fato é que o Carnaval de 2015 será aproveitado na seca e selvagem São Paulo. Até onde a memória me permite acesso, nenhum dos meus 27 carnavais anteriores eu passei na terra de Piratininga. Mesmo no ano de 2003, quando desfilei no Anhembi pela Unidos de Vila Maria, eu fui para a saudosa Praia Grande logo após o desfile.

Quesito Decisão: Nota 10.