quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Unidos de São Paulo


Meu feriado de Carnaval foi bem parecido com o dos anos anteriores.

Desta vez, fomos pra(o) praia/interior dar uma relaxada. O trânsito estava bastante carregado nos acessos da Castelo/Imigrantes/Fernão/Dutra. Até pelo menos o primeiro pedágio (que aumentou a tarifa) fomos indo na base do anda e para. Um saco de biscoito de polvilho não foi suficiente pra tamanho tempo perdido no congestionamento. No fim dessa jornada, a viagem que levaria 1/2/3 horas acabou levando 6/7/8. Chegamos de madrugada e exaustos.

No outro dia acabamos acordando muito tarde por conta da noite anterior. O dia não estava lá essas coisas, mas deu pra aproveitar. A noite saímos para aproveitar o único local com uma programação de eventos de carnaval. Tudo muito parecido com o ano anterior, talvez um pouco mais cheio...

Assim foi no Domingo, Segunda e Terça. Uma chuvinha no fim de tarde ali, ou aqui, mas nada que atrapalhasse.

Quarta-feira de cinzas é dia de juntar o que sobrou e voltar pra casa. O mesmo passo da ida se fez presente na volta. Longas filas e horas dentro do carro...só que com um ar de cortejo fúnebre em que o defunto (ou quase isso) somos nós.

Em 2015 será diferente...

Os 28 anos me fizeram repensar toda essa sina de Carnaval. Ainda não sei se estou velho demais pra enfrentar horas de trânsito e pequenos lugarejos super lotados ou se sou demasiadamente jovem para aproveitar os bons momentos livres da forma tradicional que ainda entusiasma algumas pessoas.

Fato é que o Carnaval de 2015 será aproveitado na seca e selvagem São Paulo. Até onde a memória me permite acesso, nenhum dos meus 27 carnavais anteriores eu passei na terra de Piratininga. Mesmo no ano de 2003, quando desfilei no Anhembi pela Unidos de Vila Maria, eu fui para a saudosa Praia Grande logo após o desfile.

Quesito Decisão: Nota 10.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Titanic e eu



Com pouco mais de 10 anos fui surpreendido com a então superprodução "Titanic" (1997). É bem possível que as não usuais longas três horas da saga de Jack e Rose tivessem passado em vão se meu pai não tivesse aparecido em casa com o cd "Let's Talk About Love" (1998) de Céline Dion e que trazia na décima segunda faixa a temida/adorada/odiada/repetida My Heart Will Go On. Lembro bem que essa foi a primeira música em inglês que eu cantaria sem fazer o embromation.

Numa época em que pesquisa na internet só de domingo a noite pra cobrar 1 pulso, eu seria capaz de listar todas as especificações técnicas (inúteis) do transatlântico que nem Deus afundaria. Nos anos seguintes, lembro que fiz meu pai comprar por algum tempo uma revista semanal chamada "Navios e Veleiros"  (Ed. Planeta) onde pude me aprofundar um pouco mais no assunto e as peculiares terminologias e simbolismos ligados às navegações. Tamanho interesse com um mundo completamente fora da realidade de um garoto que cresceu na cidade durou por uns bons anos e quase culminou num inconsequente alistamento na Marinha. Vai entender...

Pois bem, todo esse interesse peculiar com o universo naval acabou me tornando um pequeno admirador de transatlânticos e navios em geral de tal maneira que este ano resolvi (com meu amor) viver uma experiência parecida com àquela vivida pelos passageiros do Titanic. Felizmente, o final da minha história é bem menos trágico.

Os grandes cruzeiros impressionam qualquer um pelo seus tamanhos e imponência. É humanamente impossível ignorar mais de dez reluzentes andares flutuando no cais de um porto ou atracado em uma baía. São aquelas coisas que nem mesmo o hábito é capaz de fazer serem ignoradas.

Foi com essa admiração que fui recebido pelo colossal transatlântico Costa Favolosa na chegada ao porto de Santos. E não havia como não fazer um paralelo com o gigante que partira de Southampton 102 anos antes e com o qual tive por anos uma relação bem particular.

A estadia no chamado Fairytale Castle começou de maneira bastante confusa tanto por falta de pesquisa da minha parte como por falta de comunicação da cia. marítima e de um camareiro brasileiro (coisa rara a bordo) confuso e esquecido.

A falta de informações nos deixou à deriva nas nossas primeiras horas a bordo do luxuoso navio que realmente faz jus à sua alcunha. Durante nossa perambulação em buscas de informações pelo navio fomos nos acostumando com os salões de jantar que remetem à realeza, a começar pelos seus nomes: Duca D'Orleans e Duca di Borgogna. A decoração chama atenção pela quantidade de luzes que tornam os ambientes cintilantes.

Confesso que tamanha suntuosidade não me afetou positivamente e digo, sem hipocrisia, me incomodou um pouco. Se a tecnologia e a segurança a bordo evoluíram, a estética e comportamento social dos passageiros preferiu ficar no passado. Jantares de gala com antiquados vestidos de gala e ternos em pleno verão no hemisfério sul me parecem exigências fora desse tempo. Minha aversão por trajes de gala em qualquer ocasião talvez explique em partes essa inquietude para eventos assim. Porém, mais do que falta de "requinte" da minha parte, meu objetivo sempre foi de passar uma semana de férias calçando meus confortáveis chinelos e bermudas. E assim foi em pelo menos uma das noites de "gala".

Durante o dia, famílias inteiras, da vovó ao netinho mostravam como deveriam ser as caricatas refeições da realeza nos séculos XV e XVI. Desperdício seria pouco pra descrever o que acontece nos buffets livres do Costa Favolosa. Luís XIV e Maria Antonieta ficariam chocados...

Felizmente, nem tudo é desperdício e ostentação num navio de cruzeiro. As atividades de lazer, esporte e entretenimento a bordo são infinitas e ótimas para quem quer se divertir de maneira, digamos, mais sustentável.

Durante a noite, números de dança, música e lúdicos conseguem entreter de maneira louvável uma platéia plural composta por idosos, adultos e crianças. Durante o dia, uma equipe de animadores e dançarinos coordena uma extensa programação de gincanas e jogos que animam os bares e piscinas a bordo.

Numa das gincanas em que os passageiros  deveriam reconhecer hinos de países ganhei uma pochete, sim uma pochete, lembra do atraso estético que falei antes? E fruto talvez de um acaso digno do roteiro de "Quem quer ser um milionário" (2008) os hinos que acertei foram de Índia e, ironicamente, Canadá, o país natal de Céline Dion. Every night in my dreams...
***

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Bra vs. Sil


No último domingo, em eleição histórica (não pelo resultado), o povo brasileiro decidiu dar a oportunidade de mais 4 anos para a atual presidente Dilma Roussef que obteve pouco mais de 3 milhões de voto a mais que o candidato Aécio Neves do PSDB.

 É necessário mencionar que nunca antes um resultado de eleição gerou tanta expectativa como em 2014. A espera pelas parciais ocultadas pela votação ainda em andamento no estado do Acre tornou a espera ainda mais tensa.

Quando as primeiras parciais foram liberadas, cerca de 80% dos votos já haviam sido apurados e indicavam ligeira vantagem da atual presidente. Os dados completos indicariam mais tarde que o país estava aparentemente dividido. Digo aparentemente porque há no mínimo exagero em tecer tal conclusão baseado no resultado de um segundo turno que envolve sempre apenas dois candidatos. Mesmo a pequena margem de vantagem da vencedora não justifica essa análise que contribuiu para alguns excessos cometidos durante a eleição e após conhecido seu resultado. 

O único fato concreto é que nem a vencedora do pleito obteve a maioria dos votos. Dos 105 milhões de votos válidos, a eleita foi a escolha de 54 milhões de brasileiros, enquanto que os votos brancos, nulos e em Aécio somados resultam em 58 milhões de votos aproximadamente.

A única conclusão que vejo coerente com o real resultado das eleições de 2014 é que nenhum dos candidatos atendia aos anseios da população.

PT e PSDB foram tomando formas muito parecidas de fazer política ao longo do tempo. Escândalos de corrupção, guerra de dossiês/propaganda e acobertamento de partidários são práticas frequentemente associadas aos dois grupos que se dizem "antagônicos". Alguns menos informados os denominariam a esquerda e a direita brasileira respectivamente.

As semelhanças se tornaram tão evidentes que, na ausência de características para distinção, a melhor forma de diferenciá-los foi associando cada um à uma cor distinta. Vermelho de um lado, azul do outro parece ser a única forma clara de ver alguma diferença entre os dois grupos mais poderosos da política brasileira no melhor estilo Caprichoso e Garantido, talvez para fácil assimilação popular.

Apesar da semelhança e da rejeição, pelo regime constitucional atual um dos candidatos está legalmente eleito para presidir o Brasil, gostem dele ou não. Infelizmente, a polarização por vezes xenófoba, racista e segregacionista fomentada pela mídia a partir do resultado dessa eleição é do interesse apenas de um lado: o perdedor.

Essa espécie de secessão propagandeada pela imprensa poderá prejudicar qualquer apoio popular nas tentativas de mudanças levadas até um governo já contestado e que inicia um novo ciclo sabendo que o país está muito próximo de uma recessão que pode ter como causa uma questionável condução da política econômica e todas as questões adjacentes a ela.

A divisão só irá gerar frutos para a oposição tucana que poderá daqui 4 anos tomar nas urnas um país devastado por um cenário econômico pior do que o atual, consequência de um governo engessado pela falta sustentação, apoio do legislativo e da opinião pública. Uma tarefa que já se desenhava difícil vai se tornando cada vez mais complexa para um cada vez mais isolado governo PTista. 
Deu Dilma, mas quem ganha é o PSDB.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Minha 3a Série



O ano de 1996 foi marcante pra mim. 

No auge dos meus 9 anos a vida era um pouco mais fácil e as preocupações um pouco menores. Se a professora de Ciências tinha fama de rígida, as provas bimestrais da professora de Português e Estudos Sociais não ficavam para trás no pavor que me causavam. Preocupações pequenas pra um homem de 28 anos, mas enormes pra um garoto da 3a série B.

Foi em 1996 que descobri as eleições e a forma com que a política tem consequências na vida das pessoas. As campanhas naquela época eram diferentes, e não menos ruins do ponto de vista de quem precisa decidir quem escolher como representante. Lembro bem de um "showmício" em 1998 com o grupo Soweto e Oscar Schimdt distribuindo bolas de basquete num palanque liderado por nada menos que Paulo Maluf que naquele ano era candidato (vencido) ao governo do estado.

Se Paulo Maluf não foi eleito em 1998, muito disso deveu-se aos fatos que ocorreram em 1996 e aos quatro anos seguintes em que a disputa pela prefeitura de São Paulo confrontou Celso Pitta, do extinto PPB, e Luiza Erundina, na época no PT.


O então candidato Celso Pitta era o preterido do prefeito Paulo Maluf, enquanto Luiza Erundina tentava voltar ao posto perdido nas eleições de 1992.

O projeto mais marcante daquela campanha foi o famigerado Fura-fila. Algo parecido com o monotrilho que (ainda) não temos em funcionamento.

Os jingles de ambos os lados tomaram conta dos corredores da escola e nos recreios daquele ano de 1996. 

Não teria sido tão marcante se não fosse a constatação de que numa classe com cerca de 25 alunos apenas 2 ou 3 "votariam" na candidata Luiza Erundina. Sob a ótica atual, é quase óbvio que numa escola particular de classe média o candidato da situação seria mais bem aceito.

O problema é que Celso Pitta seria eleito e se tornaria um dos políticos com a carreira mais estranha e conturbada que eu conheci. A formação acadêmica cheia de nomes famosos e o padrinho político levaram o economista carioca até o comando do Palácio das Indústrias. Anos mais tarde, porém, o escândalo dos precatórios cassou o mandato de um já politicamente isolado prefeito que só retomaria o cargo através de liminar nos últimos dias do mandato.

Infelizmente, o ano 2000 contrariou previsões futuristas e não me permitiram retornar àquela terceira série B para cobrar meus colegas pelo resultado desastroso do candidato que eles haviam escolhido quatro anos antes.

Em 2014 a sensação é a mesma de 1996, só espero que em 2018 não sinta tanta vontade de viajar no tempo de novo pra cobrar algumas pessoas que insistem em viver naquela 3a série.


 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Dedaleiro

O dedaleiro é uma árvore de médio porte típica do Cerrado. Com flores brancas exuberantes bem poderiam estar por aí enfeitando alguma alameda do paulistano bairro dos Jardins. A verdade é que não reconheceria um dedaleiro sem a ajuda de um bom botânico.

Porém, foi no periférico bairro do Rio Pequeno que o dedaleiro se fez presente. Não com uma aconchegante sombra, mas batizando uma rua de gente normal e trabalhadora que gosta da vida pacata de classe média.

Da mesma forma que não reconheceria a árvore se a visse por acaso, hoje não reconheço a rua em que moro há mais de 15 anos. Morar na Rua Dedaleiro não foi nem de longe o que fora outrora.



O romance termina aqui. 
Começa a reportagem


Delinquentes pilotando perigosamente suas motocicletas decidiram que a Rua Dedaleiro seria sua pista de exibição e ostentação frente ao poder público e a sociedade.



Os finais de semana na antes tranquila Vila Dalva viraram um inferno. Os dias de descanso daqueles que verdadeiramente trabalham e respeitam o próximo foram preenchidos com estampidos de escapamentos de motos sem identificação, pilotadas muitas vezes por menores de idade. Capacete não faz parte dos artigos obrigatórios porque sua ausência transmite uma clara mensagem às testemunhas: Estamos acima da lei e de todos.
Qualquer tentativa de acionar o poder público com objetivo de restabelecer à calma foi premiada com o descaso de autoridades que insistem em despejar seus santinhos nos nossos quintais nesta época. Ligações para o 190 terminavam em linhas caindo ou promessas de viaturas que em pouquíssimas ocasiões vieram de fato com a inteligência e o contingente necessários para resolver um problema que não se preocupa em se esconder, aparece aos olhos de todos, todos os dias.

Alguns moradores, mais sensíveis à barbárie, se mobilizaram e, por conta própria, utilizaram como arma o próprio calvário. 
Depois de algumas tentativas frustradas pelos burocráticos meios legais, lombadas clandestinas foram construídas e pintadas na antes alegre e viva Rua Dedaleiro. Calejados pela ausência e morosidade da autoridade pública que não se impõe frente aos problemas que agridem o cidadão, os próprios moradores, em iniciativa própria, resolveram o problema de maneira providencial. A paz foi restabelecida.
Pelo menos assim estava até hoje. 
A rua que ainda carrega desatualizadas pinturas da Copa 2002 foi visitada pelo antes ausente poder público. E para surpresa daqueles que buscaram dias de mais tranquilidade, ele veio com uma eficiência germânica para remover os quebra-molas erguidos pela iniciativa popular.
Obrigado Sr. Sub-prefeito!
Obrigado Sr. Prefeito!
Obrigado Sr. Governador!

Sem vocês nada disso teria sido possível. 
Entrarei em contato nos próximos dias, espero que já estejam me aguardando.


PS.: Os tais motoqueiros já voltaram e se aproveitam do bom trabalho do nosso governo...


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Eduardo Campos e a política brasileira


Hoje, 13/08 o Brasil acordou com a notícia de uma acidente aéreo em Santos. Ao longo da manhã as notícias foram chegando e aos poucos ficou claro que o candidato a presidência Eduardo Campos estava a bordo do avião acidentado. As imagens davam pouquíssima margem para otimismo. A morte do ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência da república foi confirmada no começo da tarde deste fatídico 13 de agosto de 2014.

Do ponto de vista humano, e particularmente pra mim que utiliza frequentemente o transporte aéreo, um desastre como esse é bastante chocante e triste. Como consolar as famílias que perdem os entes queridos no auge de suas vidas? O luto guarda em si o silêncio que me parece ser o único alento num momento como esse.  

Estamos às vésperas do início da corrida eleitoral que tenho considerado uma das mais complicadas da curta e recente história de democracia do Brasil. A falta de ética e a desonestidade desgastaram a figura do político de carreira brasileiro de uma forma tão profunda que pude perceber hoje a perversidade que vem sendo externalizada pelo eleitor brasileiro e, não há como se isentar, eu mesmo compartilho parcialmente de alguma perversidade.

Ao longo do dia que deveria ser de luto e condolências, uma série de piadas e "conspirações" foram surgindo nas redes sociais (Facebook e Whatsapp). Todas elas sugerindo hipotéticos beneficiados pela ausência de Campos no pleito de 2014. 

O que deveria levar ao pranto tornou-se riso. Perversas e ignobeis, como definiu Sakamoto, muitas pessoas fizeram espetáculo da tragédia.

Por azar e talvez injustamente, Eduardo Campos represente uma classe tão desprezada pelo povo que nem mesmo a maior de todas as tragédias é capaz de suscitar o mínimo de respeito com o ser humano. É uma constatação terrível, mas sintomática de um país cujos representantes estão na posíção de semi-deuses no Olimpo chamado Brasília.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O Paulista é, antes de tudo, um forte


É quinta-feira, 17 de julho de 2014, 6:00 da manhã. Na semana em que a Copa do mundo deixou o Brasil, um morador do suburbano bairro da Vila Dalva abre o seu moderno e econômico chuveiro a gás e....ping..ping..ping...

Se a semântica me permite eu realmente não sei, mas digo que a falta de água chegou em casa pelas vazias tubulações da Sabesp. O sentimento? Culpa...

Particularmente, seria uma fácil e conveniente falta de vergonha pôr a culpa apenas no ilustre governador que não deixa de ter sua parcela de desatenção na questão. Especialistas no assunto estão por aí dando entrevistas aos baldes, vazios é claro. Os baldes não os especialistas. Banhos longos são parte da minha rotina há uns bons anos...Coisa de adolescente? Não exatamente.

O banho da manhã é o momento em que me organizo, me planejo, penso, e logo existo. Não me orgulho nem um pouco desse hábito, e já tento a alguns anos reverter esse vício. Talvez tenha chegado agora no ponto em que a culpa que sinto poderá desencadear uma atitude mais responsável. Se nos banhos que tomei até aqui pude matutar sobre diversas questões, no banho de caneca tomado nas 3 manhãs seguintes eu pude refletir melhor sobre a falta que a água encanada faz.

Num momento de embriaguez às avessas e pressa parecia clara que a única opção seria enfrentar um banho frio na gélida manhã de julho. Banho esse tomado no único chuveiro elétrico (e queimado) ligado à caixa d'água. Eis que a sabedoria da minha avó que viveu em anos, digamos, mais escassos falou mais alto e com tom ultrajante de obviedade me disse: 

  - Tome banho de caneca!.
  - Tem água quente na torneira elétrica - completou minha mãe, dando um ar mais moderno ao que seria meu banho naquele dia.

A sensação era de precariedade, mas também de alívio por ter o sagrado banho da manhã salvo. Cada "canecada" de água quente - até demais por sinal - vinha acompanhado da insistente imagem de uma casa de pau à pique e de uma criança mulata tomando seu banho sobre uma bacia vermelha-alaranjada no que parecia um cenário do sertão nordestino. Certamente esta criança era o meu próprio reflexo, com os joelhos semi-flexionados de modo a aproveitar cada gotícula de água quente sobre o corpo. Pensei que aquela situação seria para mim passageira, mas e o menino? Nesse instante a antes chamada terra da garoa, senhores, era o sertão.

E parafraseando Euclides da Cunha em 2014, posso dizer que o paulista é, antes de tudo, um forte.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Copa II


Há exatos 30 dias, eu projetava o que seria a Copa no Brasil destacando os problemas nos preparativos e os sentimentos que o futebol desperta em nós brasileiros.

Ontem, a perspectiva do hexa morreu em derrota para a Alemanha no que foi um jogo excepcionalmente fora dos padrões de uma semifinal de Copa, fora dos padrões de um jogo do Brasil. Hoje a Argentina confirmou sua participação como finalista do campeonato vencendo o sempre vistoso e inovador selecionado holandês.

Perdemos, acreditem, dentro de campo e não fora dele.

Muitos falam de vergonha, raiva, tristeza, incompreensão com o "apagão" dentro de campo. Alguns tentando demonstrar lucidez retomam o espírito pré-Copa de revolta com a falta de saúde e educação, os verdadeiros vexames nacionais. Outros, como eu, tentam fazer piada e rir com o que tem sido uma belissíma Copa dentro e fora de campo.

Pensei bastante sobre tudo que se passou nesse último mês histórico e cheguei, não por acaso, à sete conclusões:

Primeiro: Não sinto vergonha pela derrota seja ela pelo placar que for e vou torcer pelo 3o Lugar. A Alemanha conquistou essa posição nas últimas duas Copas e assim construiu esse time fantástico.

Segundo: Vergonha eu sinto ao pensar que Chile e Colômbia foram recebidos como heróis nos seus países enquanto nós insistimos em encontrar culpados entre os nossos.

Terceiro: Vergonha eu sinto ao ter visto a torcida japonesa limpar as arquibancadas de um estádio mesmo depois de uma derrota de sua equipe em campo.

Quarto: Vergonha eu sinto ao ver os alemães exaltando o futebol brasileiro sem qualquer tentativa de diminuir ou denegrir nossa reputação dentro dos gramados. Provavelmente, nossa recíproca não seria verdadeira. 

Quarto: Futebol brasileiro ainda é pentacampeão mundial. Uma derrota como essa em casa só torna as cinco conquistas mais valorosas. 

Quinto: Desta vez, não há algozes pelas razões explicadas no quarto item. A Alemanha foi competente em campo, humilde fora e, na medida do possível, misericordiosa conosco.


Sexto: Desta vez, não há culpados também. Felipão ainda é o professor do penta e ponto final. Infelizmente dessa vez não deu e ele sabe que falhou.

Sétimo: A Copa no Brasil foi legal demais pra ficar a lembrança de tristeza no final.

P.S.:Obrigado Oscar! Pelo menos não foi de zero, isso é importante pros nascidos na terra do futebol.

Até 2018!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Copa


No momento da nossa escolha como sede, era óbvio que nem mesmo os nossos melhores estádios teriam condições de receber um evento importante como a Copa, mas qual evento nossos estádios estavam aptos a receber que não uma demolição? Quase que ao mesmo tempo em que celebrávamos o anúncio da FIFA, lamentávamos a perda de sete vidas perdidas nas podres arquibancadas do estádio da Fonte Nova na Bahia que não suportou o peso dos anos de descaso das autoridades que parecem ter o milenar Coliseu romano como inspiração: pra quê reformar um estádio depois de pronto? A modernização dos nossos estádios para transformá-los nas chamadas arenas tornou-se mais do que uma mera exigência do famigerado "padrão FIFA", mas uma medida de segurança mínima para o torcedor.


A prioridade de uma obra em um estádio quando faltam leitos em hospitais é razoavelmente questionável, mas uma demanda não pode simplesmente anular outra até porque, investigando mais a fundo, veremos que as causas de ambas são as mesmas: corrupção, superfaturamentos e má gestão de recursos. Temos recursos para ambos!

Entretanto, ao que parece, passamos (de longe) da conta.

Construímos um estádio na Amazônia que provavelmente irá apodrecer recebendo jogos do não-tão-tradicional campeonato amazonense de futebol. Quando muito, vai rolar uma pelada da Copa do Brasil vai rolar no gramado caprichosamente plantado no solo que suporta uma floresta colossal.

Em Brasília a mesma situação com um atenuante: trata-se da capital da república. Porém, o que deveria ser atenuante tornou-se agravante: o Estádio Nacional de Brasília será a jóia da coroa desta Copa e foi erguido a um custo estimado em cerca de R$ 1 bi. É o nosso elefante branco de luxo lapidado em mármore.

Até mesmo em São Paulo, onde a então sede, o Estádio do Morumbi, parecia precisar de poucas intervenções acabou resultando na construção de um novo estádio para a cidade. R$900 mi. a menos nos cofres públicos. Uma torcida ao menos parece ter ficado feliz, exemplar "fiel" do desrespeito com os recursos públicos.

Se de um lado tínhamos uma necessidade, do outro tínhamos a costumeira ânsia por dinheiro público que corrói nas nosso sistema político e todos os lobbies associados à ele. O resultado não foi surpreendente senão coerente com as práticas já estabelecidas e, como sempre, gastou-se mais que o previsto tendo como retorno menos que o desejado.

Assim, aos poucos vibrar com a seleção como normalmente se fazia virou motivo de vergonha. Torcer é de alguma forma intepretado como compactuar com tudo que foi feito e da maneira que foi feita.

Infelizmente, bem ou mal, goste ou não, o futebol é a paixão nacional. Amamos este esporte e ensinamos ao mundo como jogá-lo com alegria e competência. Sim! Somos competentes em algumas coisas, e são nessas áreas de excelência que surgem as possibilidades de mudança naquelas em que o país carece.

Gosto de pensar que torcer é querer mudar. E assim vou vestir a amarelinha e, se os deuses permitirem, lembrar da campanha do hexa como um marco para mudanças mais profundas.